Limonada: refrescando as ideias

INGREDIENTES

Na incubadora da EMGE, os recém-admitidos futuros engenheiros civis, petulantemente, enfrentaram um objetivo homérico, logo no primeiro período. Para aqueles que se nortearam pelo curso “de exatas”, fugindo da sinuosa área de humanas, assim como da minuciosa biológicas e, da supostamente esgotada, área de linguagens, certamente foi devastador topar com Português na grade curricular. Como se não bastasse essa heresia, a matéria voltou para incomodar profundamente quem pensara ter se livrado dela na escola.

A audácia não findou com a mera reapresentação dessa velha conhecida entre os estudantes, já que, desde os meados do semestre, ela decidiu mostrar seu papel na vida acadêmica com requintes de crueldade, consumindo até o último neurônio das pobres almas que cruzaram seu caminho. Os estudantes, que antecipavam um conteúdo puramente quantitativo e mensurável, mediados por um simples trabalho, viram-se repentinamente na obrigação de dialogar com as palavras e, ainda por cima, receber resposta! — processo também chamado pela professora de “amor com as palavras”.

O tal plano de negócios não foi a primeira tentativa de seduzir os discípulos; como um remédio forçado goela abaixo, ele investira antes — traiçoeiro. Sua reincidência se deve ao teor da primeira aula que, de imediato, exigiu de cada estudante a apresentação pública de uma projeção da imagem de si mesmo, o ethos, literalmente, da noite para o dia. Então, os pupilos astutos investigaram a mensagem daquela experiência, para muitos, vergonhosa, que aparentava não condizer com a engenharia e, guiados pelo trauma, meditaram sobre o propósito daquela abordagem para com eles.

Embora suspeitassem das faculdades mentais da tutora, persistiram na árdua tarefa de reconhecer que, de fato, havia, ali, substância no recado daquela criança petulante (no caso, o Português). Até que, já desesperançosos pelas incognoscíveis e torturantes intenções obscuras, finalmente, cedendo à insistência pelo cansaço, vislumbraram o papel essencial que a comunicação operou ao longo de suas vidas e, sobretudo, o que estaria prestes a protagonizar com ênfase na carreira profissional de cada graduado.

Esse trabalho ganhou dimensão notória o bastante para substituir uma prova e, ao passo que a responsabilidade crescia, a agitação dos alunos acompanhava sua ascensão, visto que, no projeto, eles teriam de simular uma empresa do âmbito da engenharia civil, além do produto que ela optara por oferecer ao setor, ou o serviço, se fosse o caso.

Nesse caos organizado, a sala foi dividida em equipes e cada um deveria escolher o próprio rumo dali em diante e, pertencendo àquela esfera do mercado, não haveria restrição quanto ao tema de escolha do grupo — o que sempre funcionou magnificamente bem sob a divina sabedoria de jovens adultos, num contexto escolar.

Tendo aceito o desafio, os estudantes não pouparam engenhosidade na escolha dos temas com que trabalhariam pelo resto do semestre. Todos se comprometeram a promover o eixo direcionador da sustentabilidade, valorizado pela EMGE. E, ainda sob essa ótica, que filtra e destaca os conteúdos consoantes à responsabilidade econômica, social e ambiental, os objetos de estudo são diversos. As propostas englobam desde releituras que buscam soluções descomunais para a estrutura das construções, assim como métodos e materiais respeitosos para com o meio em que se inserem, além de formas inexploradas de obtenção de energia e, por fim, investidas que respondem à etapa de destino de um empreendimento, que compreende seu descarte — mas as esferas de atuação extrapolam os respectivos contextos.

REFRESCANDO

Podemos acompanhar o desenvolvimento dos inovadores trabalhos, por exemplo, seguindo os passos da equipe que se responsabilizou por tratar das edificações à base de contêineres — dizem as más línguas que esse é o melhor trabalho. Os estudantes se propuseram a pesquisar e se defrontaram com a constatação de que, infelizmente, a aplicação desse método de construção é esparso em território nacional, exclusivamente, pelo que há de enraizado na cultura que faz da alvenaria a tradição no país. No entanto, a mencionada abordagem disruptiva é tão prodigiosa quanto discreta em terras tupiniquins. E o grupo investiu nesse ramo, pois se atentou ao ilógico e costumeiro descarte desse sólido cofre de carga, que ficava à deriva em zonas portuárias, desperdiçando seu potencial para a construção civil.

Outros contingentes optaram por trabalhar com a geração de energia elétrica e investigaram dois métodos que, atualmente, são assunto de pesquisas laboratoriais. Uma das estratégias visa transformar energia cinética em energia elétrica, por meio da pressão naturalmente gerada por objetos maciços sobre placas desenvolvidas, especificamente, com a finalidade de reaproveitar o movimento do caminhar de pessoas ou da passagem de automóveis, por exemplo. O objetivo é fornecer um acréscimo no fornecimento de energia, nos arredores da região na qual o equipamento foi instalado.

Ainda no âmbito da conversão energética, existe ainda um grupo que se aventura por outras fontes de coleta de energia — que, desta vez, surge através do som. Também no intuito de articular uma geração de eletricidade por fontes menos impactantes ao meio-ambiente, como é o caso das variações de termelétricas e hidrelétricas, esse dispositivo traduziria algo que, inevitavelmente, permeia nosso cotidiano em energia elétrica, gerada para nos beneficiar.

Também é válido mencionar um time que se capacita no intuito de reparar os danos — manifestados na forma de rachaduras e fissuras — provocados pelo tempo. Por intermédio do material escolhido, que possui parentesco com o concreto, embora conte com outros agentes na constituição, é possível regenerar esses desgastes que uma construção sofre, invariavelmente.

Num âmbito diferente, embora tão coerente de aplicação quanto os demais, mediante as carências que o início de século explicitou até agora, existe um conjunto cujo escopo se volta para a adaptação de casas, especialmente, escadas, para que elas se tornem aptas a abrigar idosos com conforto e comodidade, sem restringir sua liberdade de circulação. Esse tipo de empreitada é relevante para a sociedade como um todo, visto que o aumento na expectativa de vida traz, inexoravelmente, as limitações que acompanham a idade.

Além dessas propostas, um coletivo decidiu atacar, ao invés de um produto, um serviço que trata do correto manejo e subsequente reciclagem dos resíduos com gênese na construção civil. Porém, apesar de a causa ser nobre e vantajosa para toda a sociedade, é possível vislumbrar no horizonte um desafio análogo ao das empresas conscientes para com a relevância da qualidade do meio, todas essas carregam a errônea reputação de que todo o subproduto de reciclagem, ou, ecossustentável, é sinônimo de lixo. Portanto, o escopo desse grupo deve engendrar também a reeducação populacional a fim de reestruturar o paradigma.

 

SOBREMESA

O engajamento com um projeto tão vasto não poderia ser mais inesperado, já que veio sorrateiramente, rastejando entre o âmago das estranhas da matéria mais inocente, diante da precária antecipação dos alunos quanto à grade curricular. Sem embargo, por acaso (ou pela professora Cida), uma viga letal esburacou as expectativas deles, que, já inconscientes — agora, sob o efeito de um transe –, foram instruídos a entender o português como a ferramenta para toda obra. Foi digno de maravilhamento perceber o quão plural é a forma de atingir o interlocutor, pela sutil mudança de palavras e o quanto uma pessoa deve se dedicar a isso, sobretudo se dependerá das habilidades comunicativas para sobreviver — num mundo de bilhões. Finalmente, peço licença aqui para roubar, apenas momentaneamente, um neologismo do professor que nos introduziu à Engenharia Civil, para dizer que o Português acabou conquistando seu valor conosco e nos provou que também é Poda com “Ph”. E, como recomendação aos futuros alunos (ou próxima leva de vítimas cof! cof!): tragam seus capacetes, para evitar eventuais acidentes de trabalho.

 

Gabriel Max Soares e Souza

Estudante do 1º período da EMGE- turma CIV1NA

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